O papel do Grêmio Estudantil

“Será que um grêmio é realmente importante para a escola?”

 

Entre tantas propostas, uma divulgação massiva, debates e eleitores que fazem questão de deixar claro seus posicionamentos, essa pergunta pode ser uma tentativa de entender de forma racional um ambiente tão barulhento.
Falar de política nunca é fácil, e talvez seja ainda mais complicado quando está inserida em um ambiente escolar: os estudantes, pela primeira vez, podem influenciar diretamente o que é oferecido a eles e ainda ver de perto as consequências de sua administração.
Se o ditado popular afirma que são os alunos que fazem a escola, nada mais justo do que provar isso através do Grêmio Estudantil, lugar em que o poder dos estudantes pode ser concretizado. Para isso, 6 pessoas foram convidadas a contar um pouco de suas experiências com os cargos dentro dessa organização. São elas:

Luis Felipe Siquinel, estudante do terceiro ano do curso de Informática integrado ao ensino médio do IFPR Campus Curitiba e atual Vice-Presidente da Gestão “Representa!”:

 

Larissa Sales Maciel, ex presidente do Grêmio Livre Estudantil Charlie Chaplin do IFSP – Campus São Paulo e participante da FENET (Federação Nacional dos Estudantes em Ensino Técnico):

 

Kallel Paiva Naveca, estudante técnico em Recursos Pesqueiros e Diretor de Políticas Educacionais do Grêmio Estudantil Chico Mendes do IFAM – Campus Manaus Zona Leste:

 

Pablo Muniz, estudante do técnico de Edificações e Diretor de Imprensa no CEFET/RJ:

Adenilson Anger, atual presidente do Grêmio Estudantil do IFRS – Campus Osório;

Joyce Dutra, vice-presidente do Grêmio Estudantil Nelson Mandela, localizado no campus de Hortolândia:

Gustavo Dantas, co-fundador do Orgulho Federal e presidente do Grêmio Livre Estudantil Chico Mendes do IFSP – Campus Cubatão.


Agora, confira três tópicos que dizem porque o Grêmio continua sendo o meio mais eficiente para acolher os interesses dos estudantes:

1. Formação de um ser consciente

Segundo Luis Felipe Siquinel, o Grêmio Estudantil “deve ser o primeiro espaço onde aquele estudante que sai do ensino fundamental, e até mesmo aquele que entra pelo ensino subsequente, terá contato com o meio politico, com a diversidade ideológica, cultural, artística, esportiva e social.”.

Quem inicia em um Instituto Federal sabe o quão verdadeira é a fala de Luis. As escolas que oferecem o ensino fundamental costumam existir em maior quantidade, podendo receber estudantes que não vem de tão longe daquela área, enquanto é normal um único Instituto receber vários indivíduos de mais de uma cidade ao redor.

Como o Grêmio tem o dever de atender a todos, há a necessidade de seus integrantes compreenderem a região mais a fundo. Como os alunos chegam até a escola? A rede de transportes é funcional? Existe um interesse geral que está subentendido e pode se concretizar em uma ação?

Para Larissa Sales Maciel, “esse primeiro contato de atuação política na vida do aluno é importantíssimo para sua formação enquanto cidadão, trabalhando principalmente o espírito de coletividade, planejamento e organização.”, uma ideia que também foi reforçada por Kallel Paiva Naveca. De acordo com ele, a inicialização do estudante com a democracia e com o conhecimento da história do país pode provir do Grêmio. Um exemplo disso se dá no nome Chico Mendes que, tanto no campus de Manaus quanto no de Cubatão, é usado para homenagear o ativista, assassinado por defender a preservação da Floresta Amazônica.

 

2. Manifestações artísticas e apoio a comunidade

Com tanta diversidade de pessoas no Instituto, não é difícil de encontrar quem se dedica ao desenho, a dança, a fotografia, a poesia, ao violão, aos esportes, artes marciais, etc. Um Grêmio tem a plena capacidade de oferecer atividades que desenvolvam as habilidades dos alunos, de forma que contribua para a integração e o bem estar entre eles.

“Dado que o Grêmio é a representação estudantil num colégio, o impacto dessa entidade na instituição depende muito do nível de organização que os alunos conseguem obter. Um Grêmio bem organizado e engajado nas pautas estudantis consegue promover desde eventos de lazer, entretenimento e descontração”, diz Pablo Muniz.

Buscando exercer essa responsabilidade do Grêmio, Adenilson Anger pretende realizar as seguintes propostas em sua gestão: “projetos de jardinagem, de artes, eventos sociais (como dias temáticos que tragam mensagens e conscientização), um grupo de apoio de alunos com profissionais da área da psicologia (que não vão atender clinicamente, mas auxiliar o grupo de forma ampla a enfrentar os problemas e atingir os objetivos). Além disso, buscamos projetos de inclusão, como o show de talentos […].”

Valorizando o talento dos alunos, é possível amenizar a constante pressão dos vestibulares e carreiras carregadas pelo Ensino Médio, criando um espaço em que é possível descobrir mais sobre si mesmo. Além disso, as ações que acontecem dentro da escola podem contribuir com atividades de fora, como pontua Joyce Dutra: “ O Grêmio pode promover eventos dentro do campus para levantar fundos para muitas causas (principalmente a dos estudantes) pensando na integridade de cada um, ambiente escolar etc. Então festas beneficentes, festivais culturais e palestras são exemplos do que o conjunto pode efetuar.”.

 

3. Representatividade

Quando perguntados se a presença de minorias ajudava a compor uma unidade mais compreensiva, cada um deu uma resposta conforme o contexto da Instituição.

Luis Felipe Siquinel: “Sim, ela é necessária e primordial. Sem uma representatividade adequada, nenhuma entidade pode se estruturar com caráter democrático. Eu como LGBT, vejo a importância que tenho, construindo a vice-presidência do Grêmio, mostrando a todos que sou competente, que posso fazer e consigo fazer, e o fato de eu ser LGBT, ou o fato de alguém ser mulher, negra ou negro, ou pobre não interfere na vontade daquela pessoa de contribuir com a construção daquele meio. Devemos entender ao mesmo tempo, que existem dificuldades para as pessoas que compõem estes grupos sociais “minoritários”, de serem reconhecidos e isso afeta sua atuação, por conta de já terem sido rebaixados por muito tempo, porém essas dificuldades, estas realidades diversas, e apenas elas, podem construir um debate e uma atuação ampla e coerente, que condiz com a realidade dos estudantes de uma instituição como a nossa, tão diversa e pluralizada – pelo menos no Campus Curitiba -, e condiz com o contexto democrático que buscamos construir.”

Larissa Sales Maciel: “Com certeza! O instituto federal é um ambiente historicamente masculino, mas nos últimos anos o número de meninas tem aumentado. Por ser uma escola de ciência e tecnologia, sabemos das dificuldades que as mulheres tem na procura de estágio e a falta de incentivo constante que diversas vezes vem da própria sala de aula, e quando pensamos na situação da mulher negra é ainda mais grave. Lembremos também da dificuldade que as mulheres tem de se posicionar nos locais de atuação por virtude da cultura do silenciamento nos espaços, não é atoa que temos poucas referências políticas mulheres. Quando uma mulher preside o Grêmio, passa nas salas de aula e toca as atividades, outras estudantes criam a consciência de que o Instituto Federal também pertence a mulher. Será no Grêmio que iremos trabalhar para mudar esse cenário e portanto precisa ser construído por meninas, negros e LGBT’s para pensar em políticas de inclusão e diversificar cada vez mais os IF’s.”

Adeilson Anger: “Eu acredito que a representatividade é importante em qualquer lugar, e o nosso grêmio tenta trazer o máximo dessas representações pra equipe executiva, porém, infelizmente todos os alunos negros que foram chamados não aceitaram, e acabamos ficando sem uma representação afrodescendente, mas além disso buscamos representar a maior parte das diferenças, pois quando nos sentimos representados, tomamos liberdade e segurança pra recorrer a esse grupo. Por fim, acho que vivemos em uma sociedade em que a diversidade reina, e demonstrar essa diversidade é romper com padrões e desconstruir estereótipos e combater preconceitos.”

Joyce Dutra: “ É muito importante que cada integrante do grêmio seja responsável e represente de fato seu cargo, não necessariamente como algo massante, pois a união de todos os integrantes assim para com os estudantes é de suma importância.”

E, para finalizar, temos o discurso de Gustavo Dantas, respondendo a mesma pergunta dos anteriores a sintetizando qual a importância desse órgão estudantil:

“Sim, considero a mais importante das características que um Grêmio deve ter: representação. O novo Grêmio (de Cubatão) possui mais mulheres do que homens, os períodos estão bem equilibrados e a diferença entre alunos de informática e eventos é mínima. Quando nos sentimos representados é muito mais fácil acreditar que podemos mudar as coisas, pois quando vemos o outro que atende as nossas necessidades podemos fazer de tudo. Um exemplo que gosto de citar é o filme Pantera Negra, o maior filme de representação negra da nossa época! Estamos num advento onde as minorias estão começando a encontrar seu lugar na sociedade e o Grêmio não pode ser diferente.
O Grêmio é capaz de fazer muitas coisas, desde os eventos citados até a luta por nossos direitos, mas isso só acontece quando a gestão é transparente, busca ouvir e todos e promove um ambiente mais sereno e agradável a todos.”

Brandon Oliveira

Estudante do IFSP - Campus Cubatão.

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